Marginal alado: por uma poética do rapper Sabotage


Rap é um dos elementos culturais ligado ao movimento hip-hop no qual mistura linguagens, não apenas da música, como também literatura e performance. O nome rap significa rhythm and poetry, ou seja, ritmo e poesia. A idéia fundamental do rap é entrelaçar som e palavra como base para dar formas as narrativas a fim de comunicar mensagens de fundo social e estético sobre a vida e a cultura das periferias. Portanto, a palavra é o principal meio pelo qual convergem os elementos que enunciam os temas ligados a essa cultura.

O rapper Sabotage, considerado um dos mais importantes mestres de cerimônia (MC) do estilo no Brasil, utilizou a palavra para demarcar o solo do rap nacional. A voz e as rimas do Sabotage formam a base que confirma a materialidade poética do rapper num meio onde a literatura escrita não impõe tanto valor quanto a literatura oral, e onde a voz é o que permite o acesso à poesia elaborada pelo pensamento.

Embora essa materialidade poética acerca do rap seja ainda muito debatida na teoria da literatura, gostaria de propor uma inserção do rap como poesia e do rapper Sabotage como poeta a fim de dar corpo ao seu material artístico em uma análise, utilizando abordagens contemporâneas sobre o conceito de ficção e de poesia.

No álbum “O rap é compromisso” de 2001, percebemos que há uma representação muito forte de uma cultura em que muitas vozes confluem em uma única voz por meio de um único rapper. Porém, é difícil saber quando a voz diz sobre si mesmo, quando fala sobre o outro, quem é o outro, quando é ficção ou quando é autoficcionalização da realidade. Por exemplo, na música que dá nome ao álbum, o eu-lírico fala sobre um sujeito que ganha a vida através do tráfico. Não sabemos se ele de fato existiu, mas podemos inferir que o eu-lírico fala de uma figura consistente no plano histórico-social e geográfico do país – o traficante. Na letra de “O rap é compromisso” verificamos que nem tudo pode ser entendido por quem está fora do plano semântico do eu-lírico, como ele mesmo supõe: “Se você é aquilo, tá ligado no que eu digo”. Mas podemos encarar também essa figura como personagem literária, sendo narrada em terceira pessoa, como podemos verificar no trecho:

Tumultuada está até demais a minha quebrada

Tem um mano que vai levando, se criando sem falha

Não deixa rastro, segue só no sapatinho

Conosco é mais embaixo, bola logo esse fininho

Bola logo esse fininho e vê se fuma até umas horas

Sem miséria, um verdinho

Se você é aquilo, tá ligado do que eu digo

Quando clareou pra ele é de 100 Gramas à Meio Kilo

Mano cavernoso, um catador eficaz

Com 16 já foi manchete de jornal, o rapaz

Respeitado lá no Brooklyn de ponta a ponta

[…]

Exemplo do crime, eu não sei se é certo

Quem tem o dedo de gesso tromba ele é o inferno

Disse muitas vezes não, não era o que queria

Mas andava como queria, sustentava sua família

[…]

Insiste, persiste, impõe que é o piolho

Na Zona Sul é o terror ele é o cara, do morro.

(SABOTAGE, 2001)

 

A mensagem sobre esse traficante se coloca para toda a comunidade que identifica na letra tal figura. A idéia de falar de um “outro” e acabar falando sobre si mesmo é um recurso próprio do rap por que insere subjetivamente nos temas o âmbito de comunidade, onde o significado e o significante transitam mais facilmente em um mesmo grupo semântico. No sentido de “comunidade” de Agambem (1993) fica claro que o rapper funciona como uma voz que confere as mais diversas singularidades dos sujeitos que compõem uma mesma classe social. E com isso ele coloca em debate cenas de um cotidiano em que ele está inserido e em que os outros conseguem se reconhecer ou se estranhar dependendo, portanto, do lugar de escuta. O eu-lírico aqui é o mediador da voz, ele expressa o que é sabido pelo outro, mas que está posto em outra ordem porque, como para Lawrence, “O homem precisa embrulhar a si numa visão, fazer uma casa com uma forma visível e com estabilidade, com fixidez” (LAWRENCE, 2016). Assim, para saber sobre si mesmo, é preciso se colocar fora do mundo, desviar-se do real. É, pois, o eu-lírico quem fala de eventos, narra histórias, destaca do possível os elementos para a construção de uma poética ficcional. Sabotage é, portanto, o responsável por tal destacamento em que transforma a imagem dos que veem a essa imagem em uma linguagem em que o outro consegue ver ele mesmo. Contudo é Sabotage o eu-lírico responsável por rasgar o guarda-sol pintado com o desenho da paisagem do real, (LAWRENCE, 2016).

Algo muito complexo de discernir no rap é o que é ficcional, o que é biográfico e o que é um documento do real, porque há uma linha tênue entre o que o eu-lírico quer passar como sendo uma mensagem de denúncia social e o que é uma autoficcionalização da realidade, ou seja, uma ficcionalização do real tomada por meio da visão da realidade social do eu-lírico. Assim, mesmo que haja uma força para expressar elementos sobre a realidade do eu-lírico em “O rap é compromisso” ele ainda quer fazer uma poética com subjetividade metafísica. Por exemplo, nos versos de “Na zona sul”, o rapper diz que mesmo com tudo que ele precisa dizer e diz “mais vale a vida”:

Eu insisto, persisto, não mando recado

Eu tenho algo a dizer, não vou ficar calado

Fatos tumultuados, nunca me convenceu

Mais vale a vida, bem vindo às vilas do meu bairro, Deus!

(SABOTAGE, 2001)

 

E ainda falando da autoficcionalização da realidade, podemos destacar os versos de “No Brooklin” em que o eu-lírico tanto pode ser quem narra a história como pode ter emprestado a voz àquele que participa do assalto ao banco, ou seja, a voz é tanto apenas uma mediação que pouco importa quem está narrando o evento, pois ambos se identificam numa mesma realidade empírica:

Em plena praça se pá, presenciei não imaginava

Truta só selo no Itaú da Rua Alba

Agência desossada, PM acionada,

Celular na mão do zé povinho viro uma arma

Que loco, sufoco, o malote tá com o troco, pipoco

Agora é cada um por si e Deus por todos

A meio corpo eu vejo um gordo enfiando bala

Pra ser mar claro parou de AR-15 aquela barca

Impressionante cena cinematográfica

Central de Santo Amaro Brooklin Sul, o tempo não pára

(SABOTAGE, 2001)

Tanto o reconhecimento quanto o estranhamento estão estritamente ligados pelos que pretendem interpretar a obra de Sabotage. Porém há uma responsabilidade no qual o autor da obra se impõe: a de que “rap é compromisso”, ou seja, que quem o faz deverá, sobretudo, arcar com as consequências de fazê-lo. Aqui o compromisso do eu-lírico se coloca frente à comunidade que ele próprio faz parte, mais ou menos como se devesse dar satisfação à ela sobre a mensagem que ele vai lançar para o outro. Como ele mesmo explica em “Um bom lugar”:

Um bom lugar se constrói com humildade

É bom lembrar: aqui é o mano Sabotage

Vou seguir sem pilantragem, vou honrar, provar

No Brooklin, to sempre ali

Pois vou seguir, com Deus, enfim.

​(SABOTAGE, 2001)​

Assim, para o autor, o compromisso está em dizer àqueles que socialmente são excluídos de que, através da sua obra, enquanto arte, que tem por natureza desviar do plano do real ou deslocar do automatismo daquela realidade os elementos reconhecíveis para o os que estão com o guarda-sol armado e pintado (LAWRENCE, 2016), poderão ter a certeza de que eles próprios existem enquanto sujeitos. Por exemplo, nos versos de “Na Zona Sul”, o eu-lírico fala sobre o lugar, não apenas o social, mas também o geográfico, de onde está seu meio, sua casa e como ela contrasta com várias outras partes do mundo. Ou seja, é preciso estar em algum lugar para, portanto, existir, assim como sujeito:

 

Muita calma nessas horas, é a lei da favela

Quem sabe faz na hora, nunca paga com gesta

Zona Sul ‘disse e me disse’ traz crocodilagem

Sou Sabotage não admito pilantragem

O Ceará sofre com a seca, Berlin derruba a cerca

Enchentes no Japão não registraram alguns cometas

Zona Sul, primeiro independência em vaidade

Criança na escola, é Hitler na tendência

Ter paciência é a chave do problema

Mas não esquenta, ai ladrão, é nos na ativa em qualquer treta

El niño na Itália, na Sul polícia mata

(SABOTAGE, 2001)

 

O que a poética de Sabotage constrói é a prova do óbvio, que para a confirmação da certeza do ser de que ele existe, de que sua realidade existe, é preciso esse desvio do olhar do mundo, ou seja, a poesia é o desvio do olhar do mundo necessário para conhecer o mundo.

 

 

 

Referências:

AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. Tradução de Antônio Guerreiro. Lisboa: Editorial Presença, 1993.

LAWRENCE, David Herbert. Caos em poesia. Tradução de Wladimir Garcia.Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie, 2016.

SABOTAGE. O rap é compromisso. [Fonograma]. Por Sabotage. Cosa Nostra, 2001. 

 

 

 

quando sai

quando o homem atravessou a porta em direção a rua 

apenas as mulheres todas pendiam na sala.

do lado de dentro, a obediência eram cabeças mulheres 

rimando que sim.

o homem deixou sua chaga quando saiu,

tudo que fica é interno:

eu corto o ar da sala com uma faca suja

desloco pele para caber no ventre

retorno ao útero antes do tempo. 

a mãe disse que o riso se esconde na parede

é preciso arrancá-lo quando o homem cala. 

tudo se arrisca quando apenas as mulheres 

sobram na casa.

o ar está invertido,

uma mulher fitou o agora

por isso decidiu que queria morrer

mas veio a menina de vestidos rebentos 

fingindo infância e pedindo leite,

ela recolheu do quintal um filhote que não vingou

sob o olhar amarelado de fome da cadela-mãe. 

“as cachorras perdoam a morte dos filhos”. 

é uma casa de família

mulheres doam corpos 

trocam pelo desalento lento do teto. 

da ausência das conversas 

eu escuto as verdades vazias

mas a voz é vulto que volta 

nas veemências da noite

ele oprime por meio de virilidades.  

havia um vínculo entre elas

era impossível arrancar os vincos.

agora elas rasgam as aparências das paredes

ocultam vontades nos armários

limpam as secreções amenas das suas veias

as velhas já estão secas. 

na mesa, há um modelo pronto de serviços.

“eu te sirvo” 

“eu te sirvo”

elas servem para calar o homem

elas servem caladas. 

las partes

me pone en muchas partes, el delirio

cuerpos pequeños en la inmensidad

me come los ojos y las manos, el delirio

pero soy plena, soy llena

alguna vez, tal vez

yo era la musica

hecha de pequeños versos

era los sonidos niños

en el espácio abierto, lugares vacíos

me puzieron, pieza por pieza

exploraron la cavidad donde el silencio

es un instrumento de viento

pero soy plena, soy llena

y danzo sola en su sala de fiesta

Coro da vadia

se fosse mais ‘inda era poco, um soco na cara do escroto que te tirou pra loca e te custou uma vida toda. mas ela solta em volta uma passo torto, samba a sola do tamanco oco, soa um pife como zabé da loca, que Paraíba masculina é papo coxo pra quem na vida desabrocha em rosa o mundo que não suporta, feminina que dá gosto. vai com as otra, engrossa o coro na vozinha roca, roga praga pra cristão que impede aborto, encara a tropa de homi froxo que te aponta a saia: “se quer respeito, se comporta”. ela trasborda a raiva, engole o choro, faz da rua sua obra, mostra os peito e deixa torta a cara do povo. olha a bandeira roxa no alto da história! esconde a faca que vai cortar a pica do caboclo.

véu da farsa

queria guardar-se de saudade no vento, sem nunca perder-se completamente das vistas. distribuir mais à frente os afetos e de longe observar o seu descaminho, perdendo no ritmo a rota e os rostos virados pra trás. rodopiar os carinhos nas mãos e prever, no vacilo, as amarras do corpo: soltar. deixar voar livremente o que não se pode falar, mas sentir quando chegar às orelhas e pescoço e o corpo todo à espera do nada. que o amor nunca se desfaça no ato da palavra, que preencher-se de linguagem é construir uma borda para dedilhar o limite, é acalmar os sons na boca e lubrificar seus ruídos. o amor não é dizível, é capturável no véu da farsa, no pulo pra que o dedo alcance um bater de asas.

waiãpi através do espelho

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reflito minha identidade num espelho

como alice vacilante exagerando a dimensão das coisas

porque posso viver agora, me ver agora e me projetar em cores

urucum misturado às lágimas

tornam vítreas as transparências

o rosto úmido sendo meu próprio espelho

e grito, como o clamor feminista gritando verdade

a voz é a força que quebra o silêncio empedrado

um gesso lácteo de leite materno.

tem alguém aí?

o mundo está fingindo que existe ou é o meu corpo sonâmbulo num touch infinito nas paredes do escuro? um movimento-sonho inchado de sono é o que de mais palpável guardo em mim. ao redor, a rapidez dos dias ,a insensatez dos dias. copos, portas, cadernos, ruas, professores. tudo que existe é um delírio meu arquivado. dos objetos, só percebo as cores, atenção especial às metálicas. um beijo na boca seu pode ser o primeiro compromisso para um dia verdade. pra me acordar, alguém precisa me tocar, retirar as cobertas de cima, abrir as janelas, pra que o ar cotidiano penetre  e desperte. você está aí?